(HJ)
Confesso que não faço muita coisa na minha vida. Não sou daqueles que vivem intensamente, daqueles imperativos e inconsequentes. Não sou um fã histérico de baladas e não saio muito de casa. Sou um pacato cidadão. Não por opção, mas por vocação, talvez. O mundo, meu mundo, me tornou assim, um monstro quem sabe, meio sozinho, só mais alguém no ninho.
Meus amigos não me procuram. Não sabem o que faço, nem o que penso. Acho que não importo muito pra eles, ninguém depende de mim e devo ser um pouco chato também. Mas a culpa é minha. Também não procuro eles, não sei o motivo, deve ser o comodismo com a solidão. Sou um individualista, tão logo um egoísta, meio perdido, meio cansadão.
Já fui de me dedicar mais aos objetivos. Na verdade, tempos atrás eu tinha grandes objetivos, pareciam tão lógicos e corretos e era por eles que eu não dormia, que eu fazia de tudo um sacrifício, uma harmonia. Hoje tudo parece demais, não consigo trilhar uma meta, qualquer plano que faça minha vontade valer a pena, algo que custe o que eu correr, doa o que doer. Mas a explicação começa pelo começo, sem entoar nem proferir, eu mereço.
Eu sonhava, e muito, ainda sonho quando durmo, sem querer mas sonho. Algumas vezes eu durmo acordado e meus sonhos não me deixam dormir. Os meus sonhos são meus maiores pesadelos. É pelos sonhos antigos, aqueles impulsivos, que tornam-se impossíveis que derramo lágrimas e é nesse mar de lágrimas que navego. Mar agitado, enorme e atormentado. Não enxergo um caminho, só vejo mar por todo o lado e por não ter rota vou navegando, pra onde a onda levar, pra onde o vento soprar.
Talvez eu seja o que ninguém quer, aquilo que eu não quero ser. Eu podia me comparar com aquela plantinha, plantada com o maior carinho, meticulosamente regada, onde a esperança de quem via enxarcava-se pelos olhos. Mas essa plantinha recebeu água demais e de tanta atenção que teve, acabou por não crescer. Ah como eu queria não ser uma plantinha, eu queria ser um passarinho, que voa por aí cantando pra quem quizer ouvir, sempre junto com quem quizer seguir. Bebendo a água de pouquinho, sentindo o vento soprar, a brisa, batendo asas, um passarinho.
Não sou tão feliz, as histórias que tenho pra contar são bem sutis. Talvez nem teria mais razão para seguir assim, aflito, um pouco arrependido, contrito. Mas lá no fundo, bem no fundinho, tem um pouquinho de esperança, que alimenta minha quimera, minha vontade louca de ser alguém diferente, que me faz acreditar num milagre, numa estrela cadente. E é por isso que eu sigo, meio doente, insensato, sabendo que os sonhos acorrentam a gente. Que é por culpa dos sonhos o meu léu, mas que são os sonhos que giram meu carrossel.

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