domingo, 27 de janeiro de 2008

No Lugar Errado




















(HJ)

Dia desses me deparei com um texto sobre um camelo que perguntava para sua mãe o motivo de eles possuirem corcovas nas costas, a mãe respondeu que como eles são animais de deserto eles podem ficar vários dias sem beber água e que as corcovas serviam para armazenar água. O camelo perguntou também o porquê de eles terem pernas longas e patas arredondadas, a mãe disse que era para eles conseguirem viver no imenso calor do deserto. O camelo ainda fez sua última pergunta, por que eles tinham cílios tão grandes, a mãe lhe contou que era para proteger os olhos contra a areia do deserto. Então o camelo olhou sério para mãe e disse: se nós temos tudo isso para viver no deserto, por que diabos estamos num zoológico?

Parei pra pensar um pouco no texto e pude compará-lo com a vida, até mesmo me identifiquei ligeiramente com ele. Para que vivemos e somos assim? E por que sonhamos? Qual o motivo de estarmos aqui nesse mundo, perdidos e às vezes desencontrados?

Bem, me culpei por algum tempo e ainda me culpo por não aproveitar a minha vida como deveria. De que adianta uma vida, se não saio do meu casulo, vivo entrincheirado, esquecido, amargurado. Eu quero mais é sair, fugir daqui, partir para a batalha, conhecer o campo de guerra e olhar além das linhas inimigas. Quero esbanjar minha vida, porque vida não se economiza, vida apenas passa se não for vivida.

Não sei pra que tenho tanto amor no coração. Escondo ele o máximo que consigo, deixo ali, guardadinho com muito carinho, mas sem um pingo de razão. Assim como tudo que temos na vida, acredito que tudo tem prazo de validade e de nada adianta guardar qualquer coisa por muito tempo. O tempo passa e depois disso nem lembranças restarão e muito menos os frutos que vejo colherem por aí, nos filmes, nas novelas, nas esquinas da minha rua.

Pois é, temos tanta coisa para ser feliz. A vida por si só já é um bom motivo, desde que seja vivida nos lugares certos, perto de quem se ama, fazendo o que se gosta. o amor está dentro de cada um e é pra ser usado com abundância, a qualquer hora e em qualquer lugar, torna-se inútil o amor em segredo, o amor cerdado de medo. Mas mesmo eu sabendo de tudo isso continuo esse ser submisso, dependente químico, físico, tecnológico. Vivo como um bandido, assassino, preso, na solitária. Quem sabe me falte alguma coisa que eu nem sei o que é ou talvez eu tenha tudo nas mãos, talvez eu só esteja no lugar errado, longe de tudo, ou talvez já esteja soterrado.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Me Diz

(HJ)

é tão estranho te amar
inesquecível, imprecindível
és a minha lua, minha luz
por você faria tudo, carregaria uma cruz
só para não viver na escuridão
olhar teus olhos, beijar teus lábios
ser feliz, só teu, sentir meu coração
lhe contaria minhas histórias fúteis
e te encheria com meus motivos inúteis
mas só porque te amo
e é por ti que aclamo
todo dia, o dia todo
sonho contigo, te chamo
vai, menininha
me diz se eu posso lhe ter, minha rainha
faz de mim um sem noção
louco de amor, perdido de paixão

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Confissão

(HJ)

Confesso que não faço muita coisa na minha vida. Não sou daqueles que vivem intensamente, daqueles imperativos e inconsequentes. Não sou um fã histérico de baladas e não saio muito de casa. Sou um pacato cidadão. Não por opção, mas por vocação, talvez. O mundo, meu mundo, me tornou assim, um monstro quem sabe, meio sozinho, só mais alguém no ninho.

Meus amigos não me procuram. Não sabem o que faço, nem o que penso. Acho que não importo muito pra eles, ninguém depende de mim e devo ser um pouco chato também. Mas a culpa é minha. Também não procuro eles, não sei o motivo, deve ser o comodismo com a solidão. Sou um individualista, tão logo um egoísta, meio perdido, meio cansadão.

Já fui de me dedicar mais aos objetivos. Na verdade, tempos atrás eu tinha grandes objetivos, pareciam tão lógicos e corretos e era por eles que eu não dormia, que eu fazia de tudo um sacrifício, uma harmonia. Hoje tudo parece demais, não consigo trilhar uma meta, qualquer plano que faça minha vontade valer a pena, algo que custe o que eu correr, doa o que doer. Mas a explicação começa pelo começo, sem entoar nem proferir, eu mereço.

Eu sonhava, e muito, ainda sonho quando durmo, sem querer mas sonho. Algumas vezes eu durmo acordado e meus sonhos não me deixam dormir. Os meus sonhos são meus maiores pesadelos. É pelos sonhos antigos, aqueles impulsivos, que tornam-se impossíveis que derramo lágrimas e é nesse mar de lágrimas que navego. Mar agitado, enorme e atormentado. Não enxergo um caminho, só vejo mar por todo o lado e por não ter rota vou navegando, pra onde a onda levar, pra onde o vento soprar.

Talvez eu seja o que ninguém quer, aquilo que eu não quero ser. Eu podia me comparar com aquela plantinha, plantada com o maior carinho, meticulosamente regada, onde a esperança de quem via enxarcava-se pelos olhos. Mas essa plantinha recebeu água demais e de tanta atenção que teve, acabou por não crescer. Ah como eu queria não ser uma plantinha, eu queria ser um passarinho, que voa por aí cantando pra quem quizer ouvir, sempre junto com quem quizer seguir. Bebendo a água de pouquinho, sentindo o vento soprar, a brisa, batendo asas, um passarinho.

Não sou tão feliz, as histórias que tenho pra contar são bem sutis. Talvez nem teria mais razão para seguir assim, aflito, um pouco arrependido, contrito. Mas lá no fundo, bem no fundinho, tem um pouquinho de esperança, que alimenta minha quimera, minha vontade louca de ser alguém diferente, que me faz acreditar num milagre, numa estrela cadente. E é por isso que eu sigo, meio doente, insensato, sabendo que os sonhos acorrentam a gente. Que é por culpa dos sonhos o meu léu, mas que são os sonhos que giram meu carrossel.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Despertador
















(HJ)

mais um dia e eu sentado aqui do teu lado
tão longe de ti, morena. tão distante
bebendo água a noite inteira e te olhando
admirando teu perfil, teu maior retrato vil
seco as lágrimas secas no meu rosto
acidez cruel que me envelhece, me venta
resseca meu ser, corrói meu coração
e eu indecente, mais um dia, mais além
espero novamente o sol nascer
outra noite, outro dia padecer
adormeço ouvindo teus passos mudos
partindo, sem despedida, sem perdão
eu embriagado de amor, delirando
durmo para nunca mais te lembrar
mas é por ti que acordo no outro dia
o mesmo dia em que resolvi te abandonar


(a foto foi eu quem tirei de um mirante
misterioso na serra do rio do rastro.
a natureza faz seu show silencioso
para aqueles que sabem ouvir)